
Era um dia de sol. Eu escutava os passarinhos cantando, os pais arrumando seus filhos para a escola, o motor barulhento dos carros e caminhões. Sentia o cheiro da terra molhada que absorveu a tempestade da noite passada. As pessoas andavam nas ruas apressadas, olhando para o relógio de cinco em cinco minutos como se o tempo voasse, e eu apenas olhava pela janela iluminada. Era um dia como outro qualquer.
Um homem bateu à porta. Usava uma camisa amarela, calça e sapatos socias. Os cabelos loiros penteados para o lado e a seriedade impregnada nos olhos castanhos quase apagados.
Marcos, era como se chamava. Protegido por Marte, otimista e com grandes abilidades, tímido. Mal desceu os quatro degraus da escada e olhou seu relógio de bolso. Já era de se esperar. Por mais concreto que seja, ninguém abandona os elos que ligam as engrenagens da vida, e se o fizer, morre.
Marcos era apenas mais um igual aos outros. Ou pelo menos, era o que eu ingenuamente pensava e imaginava.
Quando tocou com as suas mãos cansadas a madeira morta do piano desafinado, fez explodir movimentos, fez esquecer as dores.Ali, naquela invenção pura de sons, eu vi a calma enfurecendo os ponteiros dos relógios.Ali, do meu lado, eu vi gestos de cuidado, vi olhos já cansados e rugas de preocupação.
Parecia clichê, parecia fácil de se acostumar. Não.Não dá para se acostumar.
Era um místério, era o tempo parado e solitário.Eu pensava tantas coisas embaralhadas, que não me lembro de uma sequer para esclarecer.Aquele homem parou meu tempo.
Os murmúrios dos vizinhos viraram o silêncio, e as fofocas das cumadres viraram poemas.Todos os sons se calaram só para tentar ouvir o equilibrio de fios que procuravam o tom exato.
E aqueles dedos delicados se apertavam contra teclas que mal sentiam dor. Do interior daquele piano, ecoavam notas, como correm as ásguas de uma corredeira que buscam alguém que quer matar a sede.
Tudo isso, dentro daquele piano antigo, que o pai quis ter para os filhos, quis ter para os
sentimentos presos dentro da gaiola, na alma.
De repente, minha boca ficou sem palavras, meu pulmão, sem ar.E meus olhos, aqueles olhos atentos e secos, encontraram a água da corredeira para matar a sede.
Os meus lábios se largaram, como se não existisse nada que os apoiasse, como se não existisse a minha carne, o meu sangue, a minha pele.
Foi o encontro aleatóriamente planejado daquelas notas, claras, impostas no ar com a certeza mais forte que já senti.
Paixão.
Aquele homem era apaixonado, era dominado pela afinação pontual dos ouvidos.Aquele homem, tinha uma razão para viver.
Ele tocava, incansávelmente...e nem me notou.
Expôs sua sua felicidade numa agilidade inacreditável dos dedos, parecia que gritava de prazer e que chorava de alegria.
Quando acabou, levantou e olhou para o piano. Guardou suas coisas, e simplesmente terminou o seu trabalho.

