sábado, 1 de novembro de 2008

Estilhaço


Bate rápido em meu peito, descontroladamente
A junção de dores, alegrias, saudades.
Raiva, ódio e amor, como sempre.
Bate as asas beija flor, leve a minha dor e não volte mais.
Vai por que não quero mais ver a beleza dos animais.
Pobres seres. Pobre de mim.
Como um pêndulo descontrolado o meu corpo treme, intensamete.
E não há quem o segure, não há quem o aguente.
Pois a dor é tão forte, tão dormente,
Que jamais sairá de mim, de minha mente.
Que jamais perdoará quem a causou e não viverá mais como antes.
Meus pés tentam correr no tempo para esquecer.
Mas meu corpo se estilhaçou.
Juntei pedaço por pedaço, cada qual em seu lugar.
Mas um deles, bem pequeno, não tem onde se encaixar.
Então eu sigo.
Sem ele, esperando a vida passar.
E lá no fim, no fim de tudo, vou sorrir e olhar para trás.
Vou chorar...
Vou me abandonar.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Hoje

Hoje eu digo o que a vida não me diz.
Hoje, me falta força para ser feliz.
Hoje o tempo não passou.
Hoje, mais nada sobrou.
A economia de sentimentos, hoje, não existe mais.
Sentimentos que para sentir me tornei incapaz.
E a sabedoria se apagou.
Hoje, só hoje.

domingo, 7 de setembro de 2008

Momentâneo

Curiosamente alcancei uma alegria diferente.
Foi algo totalmente momentâneo
Que fez parar o segundo que vivia.
E em vez de tudo parar, os movimentos se entrelaçaram.
Os passos se tornaram barulhentos e tortos, como se tivessem defeito.
As vozes em vez de mansas, berravam entusiasmadas a falta de coragem de cada ser humano.
Como se isso desse orgulho e força.
Diante daquela selva de animais raivosos,
Disparou dentro de mim uma felicidade aguniante.
Um desepero estável numa corda bamba.
Enquanto todos se penduravam na corda e a balançavam, eu fingia voar.
E não caí.
Fui chegando cada vez mais alto, até aquele único segundo passar.
E no meu peito bate a superação das minhas expectativas,
Na minha veia corre o sangue mais vermelho e vivo.
E na minha boca existe o sorriso mais feio e puro.
Por ter colocado dentro de um livro, todas as ameaças,
E ter seguido em frente, derrubando todos os muros.

sábado, 23 de agosto de 2008

Num pingo de tempo

A cada momento, a incompatibilidade aumenta.
O tempo não se encaixa às pessoas e as pessoas não se encaixam no tempo.
Emaranham-se dedos e fios de cabelo,
E a minha força simplesmente não aguenta.

Maldita fúria que pesa como lixo,
Maldita máfia de maritacas roucas que rodeiam a tua cabeça.
Antes se esconder numa caixa de papelão,
A sangrar os olhos, a sangrar a tua mão.

As ilusões se esqueceram, e a vida chegou!
Essa é a hora de revirar e remexer o buraco que cavaste.
Arregassa as mangas e mergulha na terra, tira tudo de lá.
Desafoga a alegria de criança, desenterra o teu corpo e corre.

Vai! Corre daqui, busca o pingo de chuva que não caiu.
Encontra o pedaço de dente que não sorriu.
Desfaz a bagunça das maritacas.
E me leva com você, antes que tempo rode e o pingo de chuva caia na terra.

Me leva, antes que se enterre a esperança.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Metal


Aglomerado de átomos.
Uns livres, outros não.
Eletropositivo,
Resiste à tração
E se transforma em fios...
Fios de pautas musicais sonoras.
De continuação de notas e de sons.
Fios que invadem minha cabeça e dançam dentro de mim.
Resisto.
Resisto à dor de ouvir uma realeza de pura elegância.
Resisto à morte do silêncio.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

O Afinador de Pianos


Era um dia de sol. Eu escutava os passarinhos cantando, os pais arrumando seus filhos para a escola, o motor barulhento dos carros e caminhões. Sentia o cheiro da terra molhada que absorveu a tempestade da noite passada. As pessoas andavam nas ruas apressadas, olhando para o relógio de cinco em cinco minutos como se o tempo voasse, e eu apenas olhava pela janela iluminada. Era um dia como outro qualquer.
Um homem bateu à porta. Usava uma camisa amarela, calça e sapatos socias. Os cabelos loiros penteados para o lado e a seriedade impregnada nos olhos castanhos quase apagados.
Marcos, era como se chamava. Protegido por Marte, otimista e com grandes abilidades, tímido. Mal desceu os quatro degraus da escada e olhou seu relógio de bolso. Já era de se esperar. Por mais concreto que seja, ninguém abandona os elos que ligam as engrenagens da vida, e se o fizer, morre.
Marcos era apenas mais um igual aos outros. Ou pelo menos, era o que eu ingenuamente pensava e imaginava.
Quando tocou com as suas mãos cansadas a madeira morta do piano desafinado, fez explodir movimentos, fez esquecer as dores.Ali, naquela invenção pura de sons, eu vi a calma enfurecendo os ponteiros dos relógios.Ali, do meu lado, eu vi gestos de cuidado, vi olhos já cansados e rugas de preocupação.
Parecia clichê, parecia fácil de se acostumar. Não.Não dá para se acostumar.
Era um místério, era o tempo parado e solitário.Eu pensava tantas coisas embaralhadas, que não me lembro de uma sequer para esclarecer.Aquele homem parou meu tempo.
Os murmúrios dos vizinhos viraram o silêncio, e as fofocas das cumadres viraram poemas.Todos os sons se calaram só para tentar ouvir o equilibrio de fios que procuravam o tom exato.
E aqueles dedos delicados se apertavam contra teclas que mal sentiam dor. Do interior daquele piano, ecoavam notas, como correm as ásguas de uma corredeira que buscam alguém que quer matar a sede.
Tudo isso, dentro daquele piano antigo, que o pai quis ter para os filhos, quis ter para os
sentimentos presos dentro da gaiola, na alma.
De repente, minha boca ficou sem palavras, meu pulmão, sem ar.E meus olhos, aqueles olhos atentos e secos, encontraram a água da corredeira para matar a sede.
Os meus lábios se largaram, como se não existisse nada que os apoiasse, como se não existisse a minha carne, o meu sangue, a minha pele.
Foi o encontro aleatóriamente planejado daquelas notas, claras, impostas no ar com a certeza mais forte que já senti.
Paixão.
Aquele homem era apaixonado, era dominado pela afinação pontual dos ouvidos.Aquele homem, tinha uma razão para viver.
Ele tocava, incansávelmente...e nem me notou.
Expôs sua sua felicidade numa agilidade inacreditável dos dedos, parecia que gritava de prazer e que chorava de alegria.
Quando acabou, levantou e olhou para o piano. Guardou suas coisas, e simplesmente terminou o seu trabalho.


Meu Conhecimento

Quantas coisas aprendi...
E quantas eu simplesmente inventei!
Só sinto que sei de mais, por talvez não saber de nada.
São muitos os sonhos que me arrancam os pés do chão.
Às vezes eu nem quero voltar.
Também, voltar para que?
Eu sei lá! Tem coisas que eu nunca sei.
E é por isso que eu continuo a imaginar.
Criar as coisas é o melhor modo de se aprender.
Isso sim é que é saber!
Porque conhecimento que se preza, vive!
E respira.

Palhaçada

Minha cabeça explode agora.
Preciso dar uma volta.
Dar uma volta por aí, por outras ruas, por outros mundos.
Descobrir de novo a alegria e me formar na escola de palhaços!
Porque para não viver indignada com esta política fajuta e estes animais, devo ter um papel fixo.
Bobo da corte não.
Seria uma desonra agradá-los.
O que resta mesmo é ser palhaço.
Então me dê licença, porque preciso ir pintar o meu nariz.

Sou




A moldura fria, desenquadrada de um quadro que ainda ninguém pensou em pintar.Que é igual e diferente a você.Que se adapta ao mundo querendo fugir de ajustes e da rotina.Que se perde por querer e é encontrada no desencontro planejado de almas esquecidas.Rodeada de tristeza e desgraças de um mundo que se mata...e mata...E que mesmo assim se encontra no ponto de equilíbrio dos sentimentos, no ápice da felicidade.Constantemente inconstante nos pensamentos.Sim, feliz. Por saber se descrever de um jeito que não se entende, mas que é a fuga de desculpas esfarrapadas e mentiras por não saber ser.